bloomy
Voltar

Desenvolvimento

Do cotidiano ao faz de conta: o que os objetos podem trazer à brincadeira

Do cotidiano ao faz de conta: o que os objetos podem trazer à brincadeira

Uma flor vai até o nariz e depois encontra seu lugar no vaso. Mais tarde, uma flor de brinquedo pode fazer parte de uma cena parecida. O faz de conta também se alimenta desses encontros com o cotidiano: ações que a criança conhece podem ganhar novas versões na brincadeira.

Isso traz uma pergunta interessante para as famílias: quando apresentamos um brinquedo, que experiências podem ajudar a criança a reconhecer o que fazer com ele? Às vezes, o adulto vê uma relação óbvia entre um objeto e sua miniatura. Para a criança, essa ligação pode ainda estar se construindo.

A experiência vem antes da miniatura?

Uma pesquisa com três crianças autistas, de 7 a 8 anos, investigou essa relação. As crianças aprenderam ações com objetos reais; depois, os pesquisadores observaram se ações correspondentes apareciam com brinquedos. Um dos exemplos envolvia cheirar uma flor e colocá-la num vaso.

Os resultados mostraram essa passagem em diferentes atividades, mas com diferenças entre participantes e materiais. Duas crianças precisaram de uma pergunta adicional para ampliar o que faziam com alguns brinquedos. Portanto, aprender uma ação com o objeto real não significou que toda versão de brinquedo passaria a ser usada espontaneamente.

A pesquisa não avaliou apenas oferecer brinquedos novos. Houve seleção das atividades, ensino e acompanhamento. Essa diferença ajuda a ler o resultado sem transformar uma investigação específica numa receita doméstica.

Parecido para quem?

Uma flor real e uma flor de brinquedo podem ter haste e pétalas, mas diferir no tamanho, na textura e no cheiro. A pesquisa utilizou brinquedos com graus diferentes de semelhança com os objetos reais. A relação entre eles não era tratada como algo automaticamente evidente.

Para uma conversa em família, essa ideia pode virar uma observação simples: o que parece chamar a atenção da criança naquele material? Ela reconhece alguma ação conhecida? Explora uma parte que o adulto nem tinha percebido? Há algo na experiência real que a versão de brinquedo não oferece?

Essas perguntas são convites para conhecer a brincadeira, sem exigir que todas as crianças usem o mesmo objeto do mesmo jeito.

A rotina da família importa

As atividades da pesquisa foram selecionadas considerando experiências e preferências familiares, além da possibilidade de apresentar os materiais. Isso coloca o cotidiano no centro da conversa: quais situações fazem parte da vida daquela criança?

Uma experiência pode ser familiar para o adulto e pouco conhecida pela criança. Em vez de partir de uma lista universal de brinquedos “certos”, vale conversar sobre as cenas que ela encontra, as ações de que participa e aquilo que lhe interessa. O exemplo da flor ilustra uma possibilidade; outras famílias terão outros repertórios e prioridades.

Observar sem transformar tudo em tarefa

O estudo aconteceu em condições organizadas, com crianças que já apresentavam habilidades específicas de imitação e de associação entre objetos. O acompanhamento posterior foi de apenas um dia. Ainda há perguntas sobre o que se mantém por mais tempo e aparece em brincadeiras menos estruturadas.

Para quem lê em casa, a contribuição é um jeito de olhar: perceber possíveis pontes entre o que a criança vive e o que aparece quando brinca. Não é necessário transformar cada encontro com um objeto em treino ou cobrar uma sequência de ações.

Se a família quiser discutir possibilidades de apoio, pode levar à equipe uma descrição do que observou: quais materiais estavam presentes, o que a criança fez por iniciativa própria e o que aconteceu depois de um convite do adulto. Essa conversa começa na experiência da criança, antes de escolher o próximo brinquedo.

Leia o artigo original — Agana e colaboradores, JABA

Últimas postagens